Logo Teatrine TV
ÍCONE DA MÚSICA

Benito di Paula rejeitou rótulo que marcou sua carreira

Cantor vendeu mais de 50 milhões de discos e construiu identidade própria ao misturar samba, piano e ritmos latino-americanos

Por TERO QUEIROZ • 20/10/2026 • 10:45
Benito di Paula rejeitou rótulo que marcou sua carreira Benito preferia se definir como “sambeiro” e “pianeiro”, em defesa de uma identidade musical que também incorporava boleros e ritmos latino-americanos. Foto: Dantas Jr📸 Fotografia de Show | barbara_espetaculos

Benito di Paula deixou esse mundo aos 84 anos, no domingo (18.out.26), em São Paulo.

Nesse texto, porém, não vou falar de seu falecimento. Quero detalhar sua grande carreira marcada pelo sucesso popular, pela mistura de ritmos e pela resistência aos rótulos que tentavam definir sua música.

Esse conteúdo é longo. Nesse sentido, vai precisar de mais do que um minuto para chegar ao fim do texto.  

Voltemos. Benito foi cantor, compositor e pianista. Ele vendeu mais de 50 milhões de discos e popularizou canções como “Retalhos de Cetim”, “Charlie Brown” e “Do Jeito que a Vida Quer”, mas rejeitava a classificação de sua obra como samba-joia.

A denominação surgiu da combinação entre o samba, os arranjos românticos e o piano, instrumento que se tornou uma das principais marcas de sua interpretação.

Benito preferia se definir como “sambeiro” e “pianeiro”, em defesa de uma identidade musical que também incorporava boleros e ritmos latino-americanos.

O artista enfrentava um câncer havia cerca de um ano e morreu em um hospital particular da capital paulista.

FAMÍLIA NUMEROSA E PALCOS

Nascido Uday Vellozo, em 28 de novembro de 1941, em Nova Friburgo (RJ), Benito cresceu em uma família de 12 irmãos, em uma casa onde a música fazia parte da rotina.

Filho do ferroviário José Vellozo e de Maria Schwenck, teve os primeiros contatos com os instrumentos por meio do pai, que tocava piano, bandolim e violão.

Autodidata, aprendeu a tocar e desenvolveu uma relação com o piano que, anos depois, se tornaria central em sua carreira.

Aos 17 anos, ingressou no Exército e passou a morar no Rio de Janeiro, no Morro da Formiga, na Tijuca.

Antes de se estabelecer como cantor e pianista, trabalhou em hotéis, boates e casas noturnas, passando também por Santos, no litoral paulista.

O nome artístico Benito surgiu ainda no início da carreira, quando começou a cantar em Nova Friburgo, e ganhou o complemento “di Paula” por escolha do próprio músico, que buscava uma sonoridade italiana.

PRIMEIRAS GRAVAÇÕES E CHEGADA À TELEVISÃO

Em 1956, ainda no início da trajetória musical, Benito gravou a composição “Final” com Portinho e sua Orquestra.

Na década de 1960, trabalhou como crooner em boates cariocas e se apresentou em casas noturnas de São Paulo, onde ampliou o repertório e desenvolveu sua atuação ao piano.

Em 1968, gravou “Canção para o Nosso Amor” e uma interpretação de “Andança”, composição de Edmundo Souto, Danilo Caymmi e Paulinho Tapajós que havia sido popularizada por Beth Carvalho.

No ano seguinte, “Canção para o Nosso Amor” entrou na trilha da novela Nino, o Italianinho, da TV Tupi, emissora para a qual também gravou o tema “Nino”.

Em 1970, lançou o compacto com “Hei John” e “Faça de Mim uma Ilha”, versão em português de uma composição de Albert Hammond e Mike Hazlewood.

A gravação de “Faça de Mim uma Ilha” rendeu ao cantor o prêmio Chico Viola, da TV Record, reconhecimento que antecedeu a consolidação de sua carreira nacional.

PRIMEIRO DISCO E DITADURA

Em 1971, Benito lançou seu primeiro álbum, Benito di Paula, pela gravadora Copacabana, reunindo composições próprias e interpretações de músicas de outros artistas.

O repertório incluía “Eu Gosto Dela”, “Você Vai Ser Alguém” e “Preciso Encontrar Você”, além de versões de “Jesus Cristo”, de Roberto Carlos e Erasmo Carlos, e “Azul da Cor do Mar”, de Tim Maia.

O disco também trazia “Apesar de Você”, de Chico Buarque, cuja inclusão levou ao recolhimento do álbum durante a ditadura militar brasileira.

Em 1972, lançou Ela, segundo LP da carreira, com “Violão Não Se Empresta a Ninguém”, além de repertório que transitava entre composições próprias e obras de outros autores.

A produção contou com arranjos de Léo Peracchi, Portinho e José Briamonte, profissionais que contribuíram para a construção sonora dos primeiros discos do artista.

SUCESSOS NOS ANOS 70

Em 1973, Benito lançou “Retalhos de Cetim”, canção que se tornaria uma das mais conhecidas de seu repertório e seria regravada por artistas brasileiros e estrangeiros.

A música combinava elementos do samba com violão, cavaquinho, bateria e baixo elétrico, enquanto a interpretação alternava passagens suaves e momentos de maior intensidade.

No ano seguinte, o álbum Gravado ao Vivo reuniu canções como “Além de Tudo”, “Beleza que É Você, Mulher” e “Charlie Brown”.

A última nasceu do contato do artista com as histórias em quadrinhos do personagem Charlie Brown, durante sua passagem por uma pensão de italianos em Santos.

Na canção, Benito convida o personagem a conhecer o Brasil, transformando a referência estrangeira em uma composição ligada à sua própria experiência cultural.

Em 1975, o cantor apresentou o programa Brasil Som 75, da TV Tupi, e participou de uma delegação brasileira no mercado internacional da música realizado em Cannes, na França.

A programação televisiva também originou um disco com participações de Elizeth Cardoso, Wando e Bebeto, no qual Benito interpretou “Mulher Brasileira”.

Em 1976, recebeu o Troféu Imprensa de melhor cantor e lançou um álbum que reunia “Tudo Está no Seu Lugar”, “Do Jeito que a Vida Quer” e “Maria Baiana Maria”.

“Tudo Está no Seu Lugar” foi composta em homenagem à mãe, enquanto “Do Jeito que a Vida Quer” representava outra referência musical a Ataulfo Alves, artista que Benito admirava.

O repertório continuou a crescer nos anos seguintes, com músicas como “Osso Duro de Roer”, “Assobiar ou Chupar Cana”, “Proteção às Borboletas” e “Viva o Sol”.

Em 1978, também lançou Caprichos de la Vida, álbum em espanhol que ampliou a circulação de suas gravações para além do mercado brasileiro.

POPULARIDADE E CRÍTICA

O sucesso de público não impediu que Benito enfrentasse críticas por seu estilo musical e pela associação de suas canções ao romantismo popular.

Classificado por parte da crítica como brega ou cafona, o cantor contestava a ideia de que a popularidade diminuía o valor artístico de uma obra.

A rejeição ao rótulo de samba-joia também fazia parte dessa postura, já que Benito defendia uma maneira própria de tocar, compor e interpretar.

O pesquisador Adelcio Camilo Machado relacionou a recepção de sua obra à dificuldade de o artista conquistar o mesmo espaço de outros sambistas na historiografia da música brasileira.

Nesse contexto, “Osso Duro de Roer”, lançada em 1977, foi interpretada como uma resposta às críticas que acompanhavam sua carreira.

A música brasileira daquele período também convivia com a censura da ditadura militar, que interferia na circulação de obras e nas escolhas dos artistas.

Em seu repertório, Benito gravou canções que abordavam questões sociais e políticas, como “Tributo a um Rei Esquecido”, homenagem a Geraldo Vandré, que estava no exílio.

Em 1985, lançou o álbum Nação, com músicas como “Nova República” e “Cara Pintada”, em um repertório que tratava de questões relacionadas aos direitos, à terra e aos povos indígenas.

MUDANÇAS NA CARREIRA E NOVOS DISCOS

Na década de 1980, Benito passou por diferentes gravadoras e experimentou mudanças nos arranjos e na sonoridade de seus trabalhos.

Pela WEA, lançou álbuns em 1981, 1982 e 1983, incluindo Bom Mesmo É o Brasil, que reuniu composições próprias e interpretações de músicas de outros autores.

Em 1984, lançou Que Brote Enfim o Rouxinol que Existe em Mim, com “Amigo do Sol, Amigo da Lua”, parceria com Márcio Brandão que entrou na trilha da novela A Gata Comeu, em 1985.

No mesmo período, gravou “A Vida É Dura” com os Demônios da Garoa, música que integrou a trilha de Ti Ti Ti e voltou à televisão na nova versão da novela, em 2010.

Em 1986, lançou um álbum instrumental e, no ano seguinte, voltou à Copacabana para mais um disco de repertório variado.

Também gravou “Oração de São Francisco” com o filho Rodrigo para a trilha do filme Fé na Caminhada, exibido nos cinemas em 1988.

Em 1990, lançou Fazendo Paixão, produzido por Michael Sullivan, seguido por A Vida Me Faz Viver, em 1992, e Pode Acreditar, em 1994.

Seu último álbum de estúdio antes de um longo intervalo foi Baileiro, lançado em 1996.

Apesar de permanecer 13 anos sem lançar um disco com novas gravações, Benito continuou se apresentando e teve parte de seu catálogo relançada em coletâneas e edições em CD.

RETORNO E PARCERIA COM FILHO

Benedito di Paula e o filho Rodrigo Vellozo.

Em 2009, Benito voltou ao mercado fonográfico com um CD e um DVD gravados ao vivo no Rio de Janeiro, reunindo sucessos e músicas de diferentes fases da carreira.

Nos anos seguintes, manteve apresentações e participou de projetos dedicados ao samba, incluindo uma edição do programa Samba na Gamboa, da TV Brasil, em 2012.

O filho Rodrigo Vellozo, também cantor e pianista, passou a dividir com o pai gravações e apresentações, além de desenvolver projetos dedicados ao repertório familiar.

Em 2016, Benito lançou o single e o EP Essa Felicidade É Nossa, que deram origem a um álbum de mesmo nome em 2017.

Em 2020, pai e filho gravaram “Lágrimas no Meu Sorriso”, homenagem a André Vellozo, outro filho do cantor, que morreu aos 36 anos.

No ano seguinte, lançaram “Aurora” e o álbum O Infalível Zen, em 28 de novembro, data em que Benito completou 80 anos.

Equipe de Benito di Paula no disco “Infalível Zen”: Allan Alencar, Rodrigo Campos, Rodrigo Vellozo, Romulo Fróes, Thiago França, Marcelo Cabral e Igor Caracas.

O projeto reuniu composições antigas ainda não gravadas e músicas novas, com produção de Rodrigo Vellozo e Romulo Fróes.

Em 2022, o álbum Benito 80: Novo Samba Sempre Novo reuniu artistas como João Bosco, Teresa Cristina, Juçara Marçal e Xande de Pilares em interpretações de seu repertório.

Benito, numa apresentação televisada pela TVE, em 2022.

Em 2023, pai e filho lançaram o EP Do Jeito que a Vida Quer, com seis faixas, retomando composições que marcaram a trajetória do artista.

Em 2025, Benito participou do desfile da escola de samba Águia de Ouro, em São Paulo, cujo enredo homenageou sua obra e recuperou canções conhecidas do público.

Já em julho de 2026, Rodrigo lançou um álbum dedicado ao repertório do pai, retomando músicas de diferentes períodos da carreira.

OBRA SEM RÓTULOS

O piano permaneceu como elemento central da identidade de Benito di Paula, que levava ao instrumento os acordes e movimentos desenvolvidos inicialmente no violão.

Sua música combinou referências do samba brasileiro com boleros, ritmos latino-americanos e arranjos românticos, em uma trajetória que atravessou diferentes períodos da indústria fonográfica.

Além das vendas expressivas, suas composições continuaram a circular por meio de regravações, trilhas sonoras, projetos de homenagem e apresentações de artistas de outras gerações.

A recusa em aceitar o rótulo de samba-joia foi uma das marcas de sua relação com a crítica, mas não impediu que a expressão se tornasse associada ao estilo que ajudou a popularizar.


Siga no Google News

Veja Também

Nos apoie:
Chave PIX:

27.844.222/0001-47

QR Code para doação