O multiartista e produtor cultural Jorge de Barros faleceu aos 63 anos, na tarde desta 2ª feira (14.set.26), em Aquidauana (MS).
A informação foi relatada ao TeatrineTV pelo produtor cultural Paulo Carvalho, amigo de Jorge.
Segundo Paulo, há poucas semanas, Jorge, que era cadeirante, sofreu uma queda durante uma transferência da cama, em casa. Após o acidente, desenvolveu escaras nas costas, que teriam evoluído e comprometido o funcionamento de seus rins.
Inicialmente, o artista teria sido internado no Hospital Funrural, em Aquidauana, e posteriormente transferido para a UTI do Hospital Regional da mesma cidade.
Ele aguardava transferência para um hospital de referência em Campo Grande, mas, apesar das diversas solicitações, ela não chegou a ocorrer.
Jorge estava acompanhado pelo irmão no momento da morte.
Ao falar da situação, Paulo Carvalho criticou o tratamento dado aos artistas de Mato Grosso do Sul e questionou a ausência de prioridade na transferência do amigo, que era pessoa com deficiência (PCD) e tinha comorbidades.
“Somos descartáveis, passivos, nós artistas nesse estado. Aqui só os artistas de fora lucram e têm direitos. O que me revolta é que meu amigo era PCD, tinha comorbidades e não teve preferência na transferência de Aquidauana para Campo Grande. Quem tem valor, no fim, são esses artistas de fora, que vêm aculturar as pessoas para o agro, e os artistas daqui não têm nem valor artístico e nem valor humano, infelizmente”, declarou.
MILITÂNCIA HISTÓRICA
Atuante no teatro de bonecos, artesanato, arte-educação e, mais recentemente, no cinema de animação, Jorge de Barros construiu, ao longo de mais de 40 anos de atuação artística, uma trajetória marcada pela militância cultural e pela defesa dos direitos de artistas e pessoas com deficiência em Mato Grosso do Sul.
Sua atuação também foi atravessada pelo enfrentamento às barreiras que marcaram sua própria vida e a de outros artistas, mantendo presença constante nas lutas pela cultura sul-mato-grossense.
Em 2015, rasgou uma homenagem recebida na Câmara Municipal de Campo Grande durante um protesto onde criticava a falta de diálogo com a categoria e o atraso no pagamento de projetos aprovados nos editais do Fmic e Fomteatro.
No ano seguinte, em 2016, Jorge participou da ocupação do Iphan em Campo Grande. Mesmo diante da falta de estrutura adequada para sua locomoção, permaneceu no local durante dias, em mais um episódio de sua atuação nas mobilizações do setor cultural.
Em 2017, ganhou duas cadeiras de rodas após ter a sua quebrada durante uma agressão que denunciou ter sofrido dentro da Secretaria de Cultura e Turismo (Sectur), em Campo Grande. Uma foi entregue pela própria secretaria e a outra foi adquirida por meio de uma vaquinha organizada por amigos e movimentos sociais ligados ao artista.
Já em 2025, Jorge lançou “A Jornada de Lila”, seu primeiro curta-metragem de animação como diretor e roteirista. A obra, produzida com recursos da Lei Paulo Gustavo, abordou inclusão e acessibilidade e teve personagens esculpidos em espuma pelo artista, uma das marcas de sua atuação.
Em nota, a Fundação de Cultura de Mato Grosso do Sul lamentou a morte do artista.
“A Fundação de Cultura de Mato Grosso do Sul lamenta profundamente o falecimento do multiartista Jorge Barros de Oliveira, nome de trajetória marcante na cultura sul-mato-grossense.
Com mais de quatro décadas dedicadas às artes, Jorge transitou pelo teatro, teatro de bonecos, artesanato e arte-educação. Integrante do histórico Grupo Ipurinã, participou de importantes montagens da cena teatral do Estado e foi o primeiro ator a interpretar o poeta Manoel de Barros.
Seu trabalho também se destacou pela criação de bonecos, esculturas e adereços inspirados nas paisagens, tradições e identidades de Mato Grosso do Sul, além da atuação na formação de novos artistas por meio de oficinas realizadas ao longo de sua carreira".
As informações sobre o velório ainda não foram divulgadas.