A 8ª edição da Pantalhaç@s – Mostra de Palhaços do Pantanal – terminou em 2 de junho, deixando um legado de aprendizado e inspiração que ultrapassa fronteiras.
Artistas de sete estados do Brasil e do exterior se reuniram em Campo Grande (MS) para participar dessa ação cultural, incluindo Daniel da Rocha, também conhecido como Palhaço Jacy Borrô, que viajou de Macapá, Amapá, para se juntar à programação. Com mais de 30 anos dedicados à arte da palhaçaria, Daniel compartilhou suas impressões sobre a jornada até Mato Grosso do Sul. "Foi uma viagem longa, mas cada quilômetro valeu a pena. Estar aqui e aprender com outros artistas é uma experiência única. A troca de conhecimentos e a energia desse lugar são indescritíveis", declarou Daniel, que não visitava Campo Grande há 13 anos. “Estive em Campo Grande em 2011 para uma apresentação teatral e retornei agora para a Pantalhaç@s. Tenho duas irmãs que moram aqui, Luciana e Cristina, e aproveitei a oportunidade para estudar e matar a saudade”, acrescentou.
De onde Jacy mora até a Capital de MS são 3.368 quilômetros. De carro, o percurso equivale a três dias de viagem (59 horas).
Ativista da cultura em Macapá, Daniel contou que embora as duas capitais brasileiras estejam geograficamente distantes, há sempre semelhanças quando o assunto é arte. “Lá, o único teatro público é o das Bacabeiras, que está em reforma há quatro anos e deve ficar por mais dois anos fechado. Eu e minha esposa tocamos o Teatro Marco Zero, que é particular nosso, onde está instalado o nosso Grupo Teatral Marco Zero. Ele é o único teatro propriamente dito da cidade em funcionamento; no mais, são espaços alternativos adaptados para vários tipos de arte”, mencionou. Vale lembrar que a Capital de MS até pouco tempo também não tinha nenhum teatro público aberto. Agora há o Teatro Aracy Balabanian (gerido pelo estado), mas o teatro municipal (Paço) segue fechado.

Daniel disse que participou profundamente, comparecendo em todas as apresentações e oficinas. Numa delas, a mesa redonda "O Fazer Artístico Pós-Pandemia e nos Novos Tempos", acabou emocionando a todos com seus relatos sobre os desafios enfrentados durante a pandemia. “Fiz todas as oficinas, assisti praticamente todos os espetáculos e saio daqui alimentado de conhecimento, acolhido. Na roda de conversa, chorei quando me recordei do período da pandemia em que estivemos com o teatro fechado e só não passamos fome porque amigos nos deram o que comer. Essa união que tive em Macapá, senti aqui na Pantalhaç@s, claro, que em um contexto mais leve. Que venha novas edições”, prospectou.

O ator, palhaço, produtor cultural e um dos coordenadores da Pantalhaç@s, Anderson Lima, citou o marcante relato de Jacy. “Ele emocionou a todos com a sua história, passou por dificuldades financeiras na pandemia como relatou na nossa roda de conversa. Teve que fechar o teatro, ganha-pão da família, por um bem maior que é a vida. Aqui não foi diferente entre os nossos artistas, foi um período terrível para todos e a cultura foi um setor muito castigado”, observou Anderson.

Para Anderson, os agentes culturais precisam vislumbrar a possibilidade de repensar o fazer artístico ante a inação do poder público. “Não pode esperar que só o poder público resolva os problemas. Estamos em um novo momento e a gente precisa debater para encontrar caminhos de se posicionar perante os desafios, e das oportunidades como as leis de incentivo e, também, dentro da nossa ação fazer com que isso seja mais justo, seja de fato inclusivo”, opinou.
Por outro lado, o coordenador celebrou que o projeto da Pantalhaç@s tenha sido contemplado em um edital público cultural que viabilizou essa edição. “O FIC da Fundação de Cultura de Mato Grosso do Sul foi essencial para esta nossa oitava edição. As políticas públicas são essenciais para que possamos levar a arte e a cultura ao povo”, disse Anderson. O coordenador revelou que um desejo para a próxima edição é “conseguir mais e novos financiamentos para que possamos descentralizar a Pantalhaç@s do centro da Capital e chegarmos à periferia. Nossa última edição foi em 2019 e, agora, retomamos. É um passo por vez e o próximo que, seja um pouco maior como o sapato do palhaço, e que a gente chegue também nos bairros”, completou com humor.
A programação da mostra, que ocorreu de 29 de maio a 2 de junho, incluiu diversas oficinas de palhaçaria e uma maratona de espetáculos que encantaram o público local e os visitantes. O evento, organizado pelo Circo do Mato em conjunto com a Cia Flor e Espinho Teatro, conseguiu ser contemplada com R$ 225.000,00 do Fundo de Investimentos Culturais de Mato Grosso do Sul (FIC-MS), da Fundação de Cultura (FCMS), lançado em 2022, mas que no entanto só foi pago no final de 2023. Eis a íntegra.
Mais detalhes no Instagram (@pantalhacos) ou no blog da Mostra https://pantalhacos.blogspot.com/.