Em frente ao Museu de Arte Contemporânea de Mato Grosso do Sul (MARCO), em Campo Grande, a deputada estadual Gleice Jane (PT) falou sobre a relação entre sua trajetória política e a cultura, além de apresentar um balanço das ações do mandato e propostas para um eventual novo período na Assembleia Legislativa de Mato Grosso do Sul (ALEMS).
Candidata à reeleição em 2026, Gleice afirmou ao TeatrineTV que sua aproximação com a cultura começou antes da militância política. Professora e sindicalista, ela contou que chegou a considerar a possibilidade de seguir carreira artística.
“Na verdade, eu tinha um plano de ser artista. Eu tentei ser artista, mas, no decorrer, percebi que era muito difícil ser artista aqui no estado de Mato Grosso do Sul”, relatou.
Segundo a deputada, essa experiência passou a influenciar sua atuação política. Ela afirmou que sua relação com a arte não ocorre apenas pela atividade parlamentar, mas também pela experiência pessoal como espectadora.
“Eu não consigo me imaginar sem a arte, sem viver no meio de todas essas emoções que a arte nos proporciona”, disse.
A parlamentar também associou a cultura à formação da identidade de Mato Grosso do Sul. Para ela, o Estado, criado em 1977, ainda precisa ampliar políticas voltadas à memória, à produção artística e à valorização de diferentes manifestações culturais.
“A cultura é a força de um povo”, afirmou.
POLÍTICA PÚBLICA
Na avaliação apresentada pela deputada, a cultura não deve ser tratada como atividade puramente artística, mas como uma área capaz de movimentar trabalho e renda.
“Investir na cultura, ter isso como uma movimentação econômica, para que as pessoas possam viver disso, porque essa é uma área da economia que garante para nós uma boa vivência”, declarou.
Gleice também relacionou o acesso à arte ao bem-estar. Durante a entrevista, citou experiências como assistir a uma peça de teatro, ouvir música e dançar.
“Eu acho que a arte traz para a gente várias sensações, emoções, inclusive saúde. Eu me sinto muito bem e saudável quando estou assistindo a uma peça de teatro, ouvindo uma música, dançando, curtindo”, afirmou.
Outro ponto citado pela deputada é a preservação da memória. Segundo ela, a dificuldade de acesso a espaços culturais e históricos contribui para o distanciamento da população em relação à própria história.
“O nosso estado é um estado que não guarda a história, e a gente precisa ter políticas públicas que incentivem isso como uma forma da gente ter um povo forte”, disse.
MAIS DE 79 PROPOSIÇÕES
Ao fazer o balanço de sua atuação, Gleice sustentou que o mandato apresentou mais de 79 proposições relacionadas à cultura e seis projetos de lei específicos para o setor, dos quais quatro foram aprovados.
Entre as iniciativas está a Lei Estadual nº 6.204/2024, que instituiu o Dia da Mulher Artista Sul-Mato-Grossense, celebrado em 22 de abril. A ALEMS registrou a lei entre as iniciativas voltadas às mulheres.
Outra frente é a Comenda Lídia Baís, criada por meio do Projeto de Resolução nº 16/2023, apresentado por Gleice Jane, Mara Caseiro e Lia Nogueira. A proposta estabeleceu uma honraria voltada à produção artística de autoria feminina em Mato Grosso do Sul.
Em 2026, a ALEMS realizou nova sessão solene para entrega da Comenda Lídia Baís, com proposta da deputada. A solenidade ocorreu em 22 de abril, data de nascimento da artista que dá nome à honraria.
Para Gleice, a valorização das mulheres possui relação direta com o fortalecimento do setor cultural.
"Quando a gente consegue homenagear, lembrar e fortalecer as mulheres no processo da cultura, a gente fortalece a cultura de uma maneira geral, porque as mulheres são sempre também esquecidas", afirmou.
Ela acrescentou:
"Fortalecer as mulheres no processo da cultura é uma estratégia política, inclusive, de fortalecer a cultura de modo geral".
REGGAE E MEMÓRIA
Outro projeto citado durante a entrevista foi o que instituiu o Dia Estadual do Reggae em Mato Grosso do Sul.
O Projeto de Lei nº 118/2024, de autoria de Gleice Jane, instituiu a data no calendário estadual. A proposta foi discutida e votada na ALEMS em 2024.
Durante a tramitação, Gleice explicou que a escolha de 1º de julho ocorreu em diálogo com a Associação do Reggae de Mato Grosso do Sul e coincide com a data de nascimento de Lincoln Gouveia, músico ligado à cena do reggae no Estado e morto em 2021.
Na entrevista, a deputada também destacou essa iniciativa como parte da política cultural que pretende desenvolver.
FINANCIAMENTO É UMA DAS PRINCIPAIS COBRANÇAS
Além das propostas legislativas, Gleice mencionou o financiamento público como uma das principais dificuldades enfrentadas pelos trabalhadores da cultura.
Segundo ela, parte importante dos recursos atualmente destinados ao setor em Mato Grosso do Sul tem origem em políticas federais.
"Porque a gente também sabe que o único recurso que está chegando aqui nesse estado são recursos federais. Que o governo do estado não tem investido na cultura, que as prefeituras não têm também investido”, denunciou.
A afirmação traduz uma avaliação política da parlamentar sobre o financiamento estadual e municipal. No mandato, uma das frentes de atuação foi justamente a cobrança sobre a aplicação de recursos públicos destinados à cultura.
Em setembro de 2026, por exemplo, Gleice apresentou requerimento à Prefeitura de Dourados para pedir informações sobre aproximadamente R$ 615 mil vinculados à Política Nacional Aldir Blanc de Fomento à Cultura (PNAB). Cerca de R$ 315 mil estão relacionados ao Edital Cultura Viva e R$ 300 mil ao Museu Municipal, segundo as informações divulgadas sobre o requerimento.
Na ocasião, a parlamentar pediu informações sobre a situação dos recursos, providências necessárias e cronograma para aplicação.
R$ 88,6 MILHÕES EM CONTRATOS
Outra cobrança recente envolve contratos da Fundação de Cultura de Mato Grosso do Sul (FCMS).
Segundo levantamento apresentado pelo mandato, Gleice solicitou informações sobre 11 termos aditivos relacionados a contratos de estruturas e serviços para eventos, que somaram aproximadamente R$ 88,6 milhões entre 2022 e 2026. O TeatrineTV denunciou essa situação.
O questionamento da deputada busca identificar quanto foi destinado a esse tipo de contratação e como os recursos se relacionam com o financiamento direto de artistas, produtores, grupos e coletivos culturais.
Na entrevista, Gleice resumiu sua posição sobre o tema ao defender investimento público como instrumento de desenvolvimento.
“Nós entendemos que investir na cultura é investir num povo, é investir numa identidade, é investir em economia circular, em economia solidária, em outras formas de economia também, investir no artista”, afirmou.
PATRIMÔNIO
A entrevista foi realizada diante do MARCO, atualmente fechado. O museu é mantido pelo Governo de Mato Grosso do Sul e passa por intervenções estruturais.
O fechamento do espaço serviu de ponto de partida para que Gleice falasse sobre a necessidade de preservar equipamentos culturais e ampliar o acesso da população ao patrimônio.
“É uma pena ver um museu desse fechado. Eu passo aqui, eu queria entrar, eu quero estar aqui dentro, mas eu não posso”, disse.
Na sequência, a deputada relacionou o fechamento do equipamento à dificuldade de acesso da própria população.
“Muitas pessoas nem sabem que existe um museu aqui", lamentou.
Para Gleice, a situação demonstra a necessidade de transformar o patrimônio histórico em prioridade permanente das políticas públicas.
“Fechou por algum motivo, para reforma, e até hoje isso não foi uma prioridade”, afirmou.
A defesa do patrimônio aparece também entre os três principais pontos que ela cita para um eventual novo mandato.
PRAÇAS E ESPAÇOS PÚBLICOS
Outro problema apontado pela deputada é a dificuldade enfrentada por artistas para utilizar espaços públicos.
“A gente tem observado que os artistas tão com dificuldade de ocupar as praças públicas, os espaços públicos não são públicos”, protestou.
A questão, segundo ela, não se limita a uma única área artística. Gleice cita teatro, música, dança, artes visuais e artesanato como setores que precisam de políticas de circulação e acesso.
“Por onde eu ando, eu consigo identificar nossas habilidades artísticas no estado, e a gente não consegue fazer isso, para poder circular”, disse.
A deputada também defendeu que as políticas culturais alcancem municípios além de Campo Grande.
“Eu tô falando aqui, a gente fala da arte às vezes como no teatro, na música, na dança, mas a gente tem aqui inúmeros artesãos e artistas plásticos que fazem um trabalho fantástico, um trabalho muito bonito".
TRÊS PRIORIDADES PARA UM NOVO MANDATO
Questionada pelo TeatrineTV sobre quais seriam suas principais propostas para a cultura em um eventual novo mandato, Gleice inicialmente destacou o caráter participativo que atribui ao gabinete.
“O nosso mandato, ele é um mandato participativo. Então, a gente está aberto a proposta, a ideias, e estamos aí”, afirmou.
Na sequência, apresentou três eixos: financiamento, patrimônio histórico e diversidade cultural.
“Eu acho que a gente tem que continuar fortalecendo e lutando por financiamento. A gente precisa continuar trabalhando e lutando para garantir os patrimônios históricos que nós temos aqui no estado, e a gente também precisa lutar para garantir a diversidade cultural aqui no estado”, declarou.
A parlamentar não apresentou, durante a entrevista, um pacote fechado de projetos com nomes, números e cronogramas para cada um desses três eixos. Ela tratou as prioridades como continuidade das pautas que já vêm sendo discutidas pelo mandato.
DIVERSIDADE CULTURAL
A diversidade cultural aparece como terceiro eixo citado por Gleice.
A deputada disse que Mato Grosso do Sul reúne diferentes povos, manifestações e formas de produção artística que precisam ter espaço.
“A gente tem um estado tão lindo, tão diversificado, com os povos indígenas, com vários artistas de diferentes lugares”, disse.
Entre as iniciativas apresentadas durante o mandato está o Projeto de Lei nº 108/2025, que institui a Estratégia Estadual Mãe Terra, voltada ao fortalecimento de comunidades tradicionais e indígenas e à promoção da autonomia e soberania alimentar. O texto também prevê a valorização de saberes ancestrais e práticas agrícolas sustentáveis.
Outro projeto apresentado por Gleice em 2024 propôs o reconhecimento das línguas indígenas faladas em Mato Grosso do Sul como patrimônio cultural imaterial e a criação de uma política estadual de proteção dessas línguas.
As iniciativas mostram que a atuação cultural apresentada pela deputada não se restringe a eventos e calendários comemorativos, mas também alcança patrimônio imaterial, povos tradicionais e políticas de reconhecimento.
“O MANDATO DA CULTURA”
Ao final da entrevista, Gleice foi questionada sobre por que a população ligada à cultura deveria considerar sua candidatura à reeleição diante de outros nomes que também atuam no setor.
A resposta foi baseada na relação pessoal que afirmou manter com a produção artística e na trajetória anterior ao mandato.
“A cultura sul-mato-grossense sabe que em mim pode confiar, porque minha relação com a cultura vai além de simplesmente uma relação política”, afirmou.
Ela também associou essa trajetória ao trabalho desenvolvido antes de chegar à Assembleia.
“Antes de estar no mandato, sempre defendi a cultura, ainda na juventude sempre estivemos nessa luta”, declarou.
Na avaliação da candidata, a principal diferença está na continuidade das pautas que já apresenta.
“Eu não tô me propondo a fazer algo que eu já não faço a todo momento”, afirmou.
Gleice encerrou a entrevista definindo a própria atuação como um “mandato da cultura”.
“Então, por isso, a gente sabe que, inclusive, o mandato da Gleisi Jane é um mandato da cultura. Então, por isso a cultura deve fortalecer os espaços que já são dela", concluiu.