Tiago Vargas passa a usar tornozeleira eletrônica após mais uma condenação. Fotos: (esq.: reprodução) (dir.: Tero Queiroz)
O ex-vereador de Campo Grande (MS), Tiago Vargas (Tiago Henrique Vargas), de 37 anos, começou nesta 2ª feira (13.abr.26) a cumprir prisão domiciliar, com uso de tornozeleira eletrônica. A pena, de 1 ano e 3 meses, é resultado de condenação por ofensas contra o ex-governador Reinaldo Azambuja, a quem acusou publicamente de corrupção sem apresentar provas.
O cumprimento da pena foi determinado pelo juiz Albino Coimbra Neto, da 2ª Vara de Execução Penal de Campo Grande.
O caso, por si só, renderia apenas mais um capítulo na fracassada trajetória política e pessoal de Vargas, mas ganha outro peso quando se observa quem está do outro lado da ação: Azambuja, um nome sem qualquer prestígio entre trabalhadores da cultura em Mato Grosso do Sul.
“Nas próximas horas estarei colocando uma tornozeleira eletrônica, acessório que estarei utilizando pelos próximos 1 ano e 3 meses. Fui condenado não por praticar corrupção, mas por tentar lutar contra ela. Já fui policial civil, hoje sou um condenado com trânsito em julgado. Como se não bastasse ter sido expulso da Polícia Civil, como se não bastasse terem me tirado da vida pública, agora serei monitorado 24 horas por dia como se criminoso eu fosse. Meu Deus, só te peço misericórdia pela minha vida”.
DERROTADO POR OUTRO ALGOZ DA CULTURA
Antes de comentar a nova adesão de Vargas, convém lembrar que o caso ocorreu entre os dois mandatos de Reinaldo Azambuja à frente de Mato Grosso do Sul (2015–2022) — período em que a política cultural do Estado foi conduzida a uma de suas fases mais frágeis, marcada por cortes, descontinuidade de editais e esvaziamento de programas históricos.
No portfólio de “contribuições” à cultura sul-mato-grossense, está o destino do histórico Prêmio Rubens Corrêa, criado em 2012 e gradualmente esvaziado até desaparecer com a interrupção dos editais a partir de meados da década. No mesmo compasso, circuitos relevantes de teatro e dança deixaram de acontecer. Editais foram interrompidos. Equipamentos culturais ficaram à própria sorte. E o discurso oficial, como de praxe, seguiu em tom de negação.
Em uma notícia de 2022 [a prova], questionado pelo TeatrineTV sobre uma possível autocrítica, Azambuja respondeu que “quem tem que dizer isso é o setor cultural” — ao mesmo tempo em que sustentava que sua gestão tratou a cultura como prioridade. A resposta, previsivelmente, não convenceu.
Nesse cenário, derrotar Vargas e submetê-lo ao vexame de circular com uma tornozeleira acaba sendo, ironicamente, um dos raros “serviços” de impacto atribuídos ao ex-tucano — hoje reposicionado como liderança da extrema direita em MS — para os trabalhadores da cultura.
UMA ARTISTA JÁ HAVIA DERROTADO VARGAS
Semelhante ao desprezo de Azambuja pelos trabalhadores da cultura, Vargas construiu parte da sua imagem atacando artistas e desqualificando a produção cultural.
A condenação que levou Vargas a usar tornozeleira não tem relação com esses ataques aos trabalhadores da cultura, mas vale lembrar que, há 3 anos, ainda como vereador, Vargas saiu em defesa da prefeita Adriane Lopes (PP), durante uma audiência na Câmara Municipal de Campo Grande.
Naquela ocasião, em 14 de dezembro de 2023, trabalhadores da cultura lotaram a Casa de Leis da Capital para cobrar o pagamento do Fundo Municipal de Incentivo à Cultura e do Programa de Fomento ao Teatro (FMIC e FOMTEATRO), editais que a prefeita campo-grandense vinha caloteando desde 2022.
Durante o debate, Vargas atacou os trabalhadores das artes, referindo-se a eles como "vagabundos". Segurando seu exemplar da Carteira de Trabalho, o então vereador disparou que os trabalhadores do setor deviam buscar um vínculo trabalhista (como se não tivessem um trabalho em prol das artes).
Além dos ataques presenciais, nas redes sociais, Vargas elegeu uma trabalhadora das artes como seu alvo. A vítima foi a artista Thalya Ariadna Palhares Veron, que foi alvo de ataques misóginos por parte do vereador e de sua rede de ódio.
Thalya recebeu apoio de setores de defesa das mulheres e das artes e, corajosamente, levou a situação aos tribunais, apesar de o massacre virtual que sofreu ter lhe causado pânico que, inclusive, à época a levou a mudar-se da Capital de MS.
(14.dez.23) – A artista visual Thalya Veron ergue cartaz lembrando a situação de inelegibilidade de Tiago Vargas, condenado e que, portanto, não pode concorrer no próximo ano. Foto: Tero QueirozA resposta dos tribunais veio em 29 de julho de 2025. O Judiciário reconheceu o dano cometido por Vargas contra Thalya e determinou indenização de R$ 20 mil à artista. Entretanto, não houve retratação pública por parte de Vargas.
Assim, apesar da vitória de Azambuja, antes dele, uma artista já havia derrotado o extremista de direita Tiago nos tribunais.
Ambos os casos ajudam a demonstrar que Vargas escolheu operar no espaço público utilizando o ódio e o desrespeito às leis como mecanismo para ganhar eleitorado. Entretanto, até mesmo os radicais de direita sabem que o respeito às leis é parte do rito democrático.
Derrotado nas urnas em 2024 e com passagem curta pela prefeitura de sua aliada, Adriane Lopes, Vargas já vinha em declínio político.
O ex-vereador Tiago Vargas depois de colocar a tornozeleira eletrônica na Agência Estadual de Administração do Sistema Penitenciário (Agepen). Foto: ReproduçãoA imagem dele usando tornozeleira foi produzida por si. Vargas adotou o discurso de perseguição, chorou nas redes, mas está claro que a tornozeleira não muda seu percurso: ela é resultado de sua atuação, sempre contrária às leis, e decreta seu fim na vida pública.







